quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Trem




Chegou o último trem, o relógio marcava onze da noite. Escutava-se o murmúrio de pessoas se deslocando de um vagão ao outro. Eram uníssonos dispersos e misturados aos passos, sons da vida... Eu estava entre eles, produzindo o mesmo ar e correndo com a mesma pressa. Chovia frias gotas sobre os trilhos, tão cansadas e finas que se tornavam imperceptíveis aos olhos.




O trem se movimentou, escutava o martelar de suas rodas no ferro e sentia o cheiro de querose se queimando... A velocidade ia aumentando deixando para trás as casinhas do suburbios, árvores e ruelas sem nome; meus cabelos volitavam por cima de minhas espáduas e os longos fios conheciam a atmosfera ao saírem pela janela. Pensava enquanto meus olhos se fechavam tomados de um torpor, de cansaço. Era mais um dia a ser esvair, mais um breve e silencioso instante movido pelo tempo que morria com a chegada dos fatos. E eu morro.... Morro a cada sopro de vida, enquanto o peso dos segundos se transformam em minutos, horas, dias... Décadas.

O trem estava chegando em seu destino. Avistava lugares conhecidos, paisagens por onde meus pés pisaram... Conhecia aquele montículo ilmuninado por postes de luz fosca e as mesmas construções a fazerem parte de minha história no passado e no presente. Podemos dizer, nostalgico... Lembro ainda do parquinho e das brincadeiras na gangorra e como tocaria com os pés no céu cheio de estrelas ao voar com o gingado do balanço... Lembro do mesmo portão e de como meu corpo se encostava junto ao seu. Eram inumeras palavras de amor, promessas tão curtas quanto uma viagem para o céu. Ainda consigo ouvir o estalo de seus lábios em meu ouvido, sua voz ao penetrar languidamente minha alma... O trem se vai... Vai.. Vai... Parece correr enquanto o meu coração bate e o tempo se esvaí... Morro a cada lembrança esquecida, a cada passagem, trecho, parque, sonhos perdidos... Morro porque sei dos segundos produzidos pelo piscar de meus olhos, do simples construir das linhas de meu rosto. Tenho consciencia que a vida é qual um trem ao chegar em se destino. Antes disso, vivemos, amamos e sofremos. Percorremos as mesmas estradas, conhecemos os mesmos caminhos e lembramos de muitos fatos.

Camilla da Silva Ribeiro

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